Crise afeta programas de mobilidade da Rural

iminuição de verbas para as universidades federais prejudica o financiamento de intercâmbios acadêmicos

Por Brenno Carvalho, Bruna Somma, Nathália Barros e Suelbe Gomes.

Jantar promovido pelos intercambistas na Universidade de Lleida, na Espanha. (foto: divulgação/facebook)

A crise financeira instaurada no Brasil a partir de 2014 diminuiu os repasses de verbas para as universidades públicas. Com isso, as instituições de ensino precisaram separar as prioridades e definir cortes de gastos. No caso da UFRRJ, os programas de mobilidade acadêmica – que possibilitam o intercâmbio de alunos para universidades conveniadas no exterior – foram afetados. Em 2017, alguns dos acordos de cooperação entre a Rural e instituições de outros países ainda não foram renovados. Sem essas possibilidades, milhares de alunos deixam de vivenciar novas experiências, trocar conhecimentos, conhecer novas culturas e crescer pessoal e academicamente.

Um dos mais almejados e famosos programas de mobilidade oferecido pelo governo federal foi o Ciência Sem Fronteiras (CsF). Quando foi criado em 2011, previa a utilização de até 101 mil bolsas em quatro anos. No entanto, em julho de 2016, o Ministério da Educação informou que os alunos de graduação não seriam mais atendidos pelo programa. “Agora ele será reformulado e somente irá atender os alunos de pós-graduação” foi o que Mendonça Filho, Ministro da Educação, disse ao assumir o cargo, afirmando que o programa iria oferecer 5 mil bolsas para o novo público.

Em 2017, o Ministro confirmou o fim completo do programa após recomendação do presidente Michel Temer. O ministro da educação disse que o programa promovia a inversão de prioridades, o atendimento de ricos em detrimento dos pobres. “O orçamento é praticamente o mesmo da merenda escolar, que atende 41 milhões de estudantes”, comentou o Mendonça Filho. Ele ainda completou afirmando que o governo Dilma acabou com o Ciência Sem Fronteiras para alunos da graduação. “O último grande bloco de alunos contemplados pelo programa foi em 2014. Essa última edição envolveu R$ 3,7 bilhões para atender 35 mil alunos.

O custo foi superior a R$ 105 mil por alunos em um ano”, afirmou Mendonça. O Itamaraty, em resposta à rede de TV BBC, disse que “continuará a assistir os estudantes brasileiros no exterior (todos e não somente os do CsF) nos consulados e embaixadas”.

Thais Lima, aluna de Arquitetura e Urbanismo da Rural, que foi contemplada pelo programa em 2015, no qual passou uma temporada na França, fala com pesar que o projeto foi muito importante para a sua formação enquanto profissional. Para ela, ver o programa acabar assim, sem dar oportunidade a mais pessoas, oriundas de família pobre, possam passar pela experiência que ela passou, é definitivamente triste.

Outros desafios

Mas, nem só de Ciências Sem Fronteiras vive a mobilidade acadêmica. Existem outras alternativas para o crescimento de jovens estudantes. O banco Santander, por sua vez, oferece alguns programas de intercâmbio, como o de bolsas ibero-americanas. O projeto viabiliza e contempla o direito do intercambista de passar um período de seis meses fora; estudando em sua área de graduação. A bolsa de custo é de três mil euros para sanar gastos com transporte, hospedagem e alimentação.

Com a última leva de alunos para retornar ao Brasil em agosto, a Rural não está mais entre as Universidades participantes do programa de Bolsas Santander. Com essas possibilidades cada vez mais escassas, o nível tecnológico e acadêmico dos alunos da UFRRJ está entrando em colapso.

“O Santander disponibilizava 10 bolsas para a Rural, divididas em dois programas: o primeiro o luso-americano e o segundo o íbero-americano. O primeiro foi extinto. Então, há uma conversa com o banco para que as cinco bolsas que eram do primeiro programa passem para o acordo ainda vigente. Estamos em fase de diálogo para ver o que pode ser feito”, explica José Luís Fernando Luque, coordenador de Relações Internacionais da UFRRJ.

Para Iggor Cavaliere, graduado em Psicologia pela Rural, que estudou seis meses na Universidade de Lleida (na Espanha), é frustrante saber que os acordos não foram renovados e que os alunos estão perdendo oportunidades únicas de crescimento e aperfeiçoamento acadêmico.

“É uma pena que os ajustes nas contas do governo recaiam sempre sobre a educação e tenha repercussões em programas tão importantes como este e tantos outros. Assim, muitos alunos deixam de vivenciar essa experiência tão rica, singular, inesquecível e especial. E que pode ter um potencial transformador na medida em que aquilo que se aprende na teoria e na prática, ainda que de uma realidade diferente da nossa, pode contribuir para pensar, problematizar, aperfeiçoar e construir projetos e políticas nas mais diversas áreas que poderiam beneficiar de algum modo nossa população e país” explicou o intercambista.

Novas oportunidades

O coordenador de Relações Internacionais da Rural esclareceu, em conversa, algumas questões sobre a crise que atingiu os programas. A posição da coordenação é de pressionar as alternativas para que os alunos não deixem o sonho do intercâmbio de lado.

“Considerando que as políticas federais estão massacrando as bolsas, a ideia é intensificar os reforços para os convênios que venham da iniciativa privada e que não passem pela esfera federal, para podermos estabelecer uma negociação de número de vagas”, explicou o professor.

Luque também trouxe uma notícia que soa como um suspiro em meio à onda de cortes. Um novo programa está sendo desenvolvido. É o “Mais Ciência, Mais Desenvolvimento”, que além de driblar o problema dos alunos de ciências humanas, desfavorecidos pelo CsF, também consegue resolver alguns problemas de organização da Universidade.

Com isso, a Rural passa a ter uma política de internacionalização mais rígida. A meta do novo programa é que a Universidade proponha uma estratégia de internacionalização com a graduação, pós-graduação e os institutos para aproximar os alunos à Coordenação de Relações Internacionais (Corin).

Para ouvir a opinião do professor Luque sobre o extinto Csf e mais informações sobre o novo programa de mobilidade, ouça o áudio abaixo.

 

Conversamos também com alguns estudantes da Rural que participaram ou ainda participam de programas de mobilidade acadêmica. Para saber sobre as experiências de cada um e entender porque o intercâmbio é tão importante, leia os perfis abaixo:

Iggor Cavaliere
Universidade de Lleida, Espanha.
(FOTO PERFIL IGGOR)

Ana Rachel Simões
Universidade do Porto, Portugal.
(FOTO PERFIL ANA)

Otávio Augusto Chaves Universidade de Coimbra, Portugal. (FOTO PERFIL OTAVIO)

Virginia Cassani
Universidade do Porto, Portugal.
(FOTO PERFIL VIRGINIA)

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